Entre o sagrado e o profano: A Experiência Religiosa em Jung
- Arthur Bernardes
- 30 de out. de 2025
- 4 min de leitura
A relação entre psicologia (num sentido mais amplo) e religião é antiga — e, ao mesmo tempo, ainda pouco explorada em sua complexidade dentro do nosso campo de trabalho. Na psicologia analítica, essa relação ganha contornos próprios, pois Jung não trata a religião como um mero conjunto de dogmas ou crenças, mas como uma experiência viva da psique - ou um fenômeno psíquico que é vivenciado de maneira tanto individual quanto coletiva. É nessa dimensão que surge o conceito de Numinoso, tomado emprestado de Rudolf Otto, também discutido por Mircea Eliade, e ampliado por Jung para o campo psicológico.
A experiência do Numinoso diz respeito àquilo que nos ultrapassa a racionalidade e a lógica — um misto de fascínio e temor, algo majestoso, irracional, mas profundamente significativo. Quando o indivíduo é tocado por essa dimensão, ele percebe que a realidade que o cerca se divide entre o sagrado e o profano, como explorado por Eliade: aquilo que antes era comum se torna simbólico e significativo; e até coisas do cotidiano, agora, são habitadas pelo que é fascinante.

Do fenômeno religioso à psique
Enquanto Freud, pelo menos inicialmente, entendia a religião como uma ilusão ou um mecanismo de defesa psicológico, Jung reconheceu seu valor simbólico e arquetípico. A religião, para Jung, é um fenômeno humano universal, uma tentativa espontânea da psique de se relacionar com o que está além da mera lógica causal e as limitações da racionalidade.
Autores como William James, Rudolf Otto e Mircea Eliade contribuíram para essa discussão. Otto cunhou o termo Numinoso para descrever o caráter irracional e arrebatador da experiência religiosa. Eliade, por sua vez, ao estudar o “sagrado e o profano”, descreveu como o ser humano distingue espaços e tempos dotados de sentido simbólico — aquilo que ele chamou de hierofania, ou a manifestação do sagrado.
Jung dialoga com ambos, mas desloca o problema para o interior da psique (e também, para o coletivo, consequentemente). O Numinoso, em sua leitura, não é apenas um fenômeno externo, mas uma vivência psíquica que emerge quando o inconsciente se manifesta de modo autônomo, e geralmente muito significativo, nunca sendo neutro, mas com caráter destrutivo ou curativo, sendo carregado de aspectos simbólicos, e portanto, de significado.
A fenomenologia da religião e o Círculo de Eranos
Na década de 30, intelectuais de diferentes áreas se reuniram, a partir da construção de Olga Froebe-Kapteyn, no chamado Círculo de Eranos — entre eles, Jung, Eliade, Rudolf Otto, Joseph Campbell e Martin Buber. A proposta era ousada: compreender a experiência religiosa a partir de múltiplas perspectivas, sem reduzi-la a uma única teoria ou campo do conhecimento.
Essa atitude — que podemos construir aqui enquanto algo de "fenomenológico" — consistia em observar os fatos de maneira empírica antes de enquadrá-los em categorias teóricas pressupostas. Para Jung, o erro de muitas escolas psicológicas era o de ajustar a realidade à teoria, em vez de deixar que o fenômeno demonstrasse naturalmente sua própria estrutura.
Dessa escuta foram incorporadas novas construções a alguns conceitos fundamentais da psicologia analítica, como símbolo religioso, arquétipo e função transcendente — pontes entre consciência e inconsciente que, no contexto da psicologia da religião, explicam o impacto duradouro na humanidade de diversos dos mitos e rituais.
O sagrado como experiência viva
Mircea Eliade observou que o ser humano nunca deixou de ritualizar o mundo, ainda que de forma inconsciente. Desde montar uma árvore de Natal até reunir a família à mesa, repetimos gestos que, em algum nível, expressam uma busca por sentido. Mesmo quando a religião institucional se enfraquece, as vivências simbólicas continuam sempre presentes.
Jung reconheceu nessa busca uma tentativa da psique de lidar com a tensão entre a racionalidade e o irracional. Quando o indivíduo ignora (de maneira consciente ou não) essa dimensão simbólica, corre o risco de se perder em unilateralidades — seja o fanatismo religioso, seja a alienação racionalista e causalística.
A religião, portanto, pode também atuar como uma proteção psíquica: um espaço simbólico onde a pessoa encontra referência e orientação diante do caos coletivo, como que um ponto de vista externo. Foi o que Jung observou ao analisar a Alemanha nazista nos volumes 10 das Obras Completas — um exemplo extremo de como a ausência de sentido religioso pode ser substituída por ídolos ideológicos e massas fascinadas por novos “deuses”.
Deus está morto — e agora? - Próximos passos da discussão
A psicologia analítica herda a provocação de Nietzsche enquanto uma tentativa de traduzir suas implicações psicológicas: “Deus está morto — e fomos nós que o matamos”. Jung, porém, vê o problema sobre uma ótica psicológica. O que morreu, segundo ele, não foi Deus em si, mas o significado vivo dos símbolos religiosos. Quando os rituais perdem sentido, quando as imagens deixam de nos afetar, o sagrado se esvazia, e perde-se o significado, levando à dissociação psíquica.
Nesse vazio, o indivíduo moderno é desafiado a reencontrar o sagrado dentro (e fora?) de si — não como crença dogmática ou uma confissão baseada simplesmente em encontros político-sociais em espaços aparentemente sagrados, mas como realidade psíquica. A experiência do Numinoso, nesse contexto, torna-se um caminho de integração: a irrupção do mistério no cotidiano, capaz de religar o homem à totalidade da própria psique, das maneiras mais simples e tradicionais, até as mais complexas.
Esse diálogo será mais trabalhado posteriormente, haja vista que o tema da moral pessoal e morte de Deus é de grande interesse, e com certeza será trabalhada nos próximos cursos e postagens por aqui.

Aprofunde-se na temática
O curso “O Numinoso e a Religião na Psicologia Analítica” faz parte de uma série de estudos da Academia Junguiana, voltada à formação teórica e à compreensão simbólica da psique. A proposta é acompanhar, em cinco módulos, desde o pensamento de Mircea Eliade até a elaboração junguiana da experiência religiosa, abordando temas como o sagrado, a função transcendente e os símbolos coletivos.
Se a religião, como dizia Jung (ou o próprio Otto), é uma submissão aos dados irracionais, e de alguma maneira, ao inconsciente e seus símbolos, compreender seu sentido é também compreender a própria condição humana.
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