Por que o Sentimento é uma Função Racional?
- João de Bragança

- 13 de fev.
- 9 min de leitura
O que é uma função?

Na tipologia junguiana, função não é um sinônimo de habilidade, nem de conteúdo psíquico, isto é, uma ideia, uma emoção ou uma imagem, mas é, sim, uma maneira ou um modo operar existente na psique: a forma segundo a qual a consciência processa, seleciona, ordena e orienta a experiência. Falar de funções é falar de formas de atividade.
É decisivo começar por esta distinção, pois não é raro encontrar quem imagina a tipologia como um inventário de “pessoas que pensam” versus “pessoas que sentem”, como se pensamento e sentimento fossem quantidades de uma substância que existe em determinadas pessoas e não em outras. Jung, ao contrário, está tentando encontrar princípios de funcionamento: maneiras pelas quais a psique se adapta e se posiciona diante dos objetos. Isso dá à tipologia um caráter heurístico: ela não quer dizer “o que alguém é”, mas fornecer uma espécie de mapa possível para observar como alguém tende a operar ao se orientar no mundo.
Nesse sentido, Jung oferece uma definição que vale como eixo. Em Tipos Psicológicos ele escreve: “Por função psicológica entendo uma certa forma psíquica de atividade que, em princípio, permanece idêntica sob condições diversas” (§811). O que é importante manter em mente: (1) trata-se de atividade; (2) há uma peculiaridade formal que atravessa situações diversas; (3) a função é reconhecida pela regularidade de sua forma, não pelo conteúdo momentâneo que a ocupa.
Jung ainda acrescenta um comentário energético, que é importante para não se perder a dimensão dinâmica da psicologia analítica: “Sob o ponto de vista energético, a função é uma forma de manifestação da libido” (§811); lembrando que libido em Jung é um sinônimo de energia psíquica e não um derivado de sexualidade. Assim, dizer que a função é uma forma de manifestação da libido é dizer que a energia psíquica não aparece bruta, ela aparece configurada, isto é, organizada por modos relativamente típicos de atividade. A função dominante de um sujeito tende a ser aquela pela qual a libido se escoa com maior regularidade e eficiência, e também aquela pela qual a consciência obtém seu senso de orientação e segurança.
Jung sistematiza essa descrição ao apontar quatro fundamentais: “Distingo ao todo quatro funções básicas: duas racionais e duas irracionais, respectivamente, o pensamento e o sentimento, a sensação e a intuição.” (§811). Ainda não precisamos justificar, aqui, por que exatamente quatro (isso exige o percurso do livro), mas é importante fixar que a tipologia não é uma multiplicação arbitrária: ela procura reduzir a diversidade empírica a um conjunto mínimo de funções irredutíveis entre si, ou seja, não se confundem: “Distingo essas funções entre si porque não podem ser relacionadas ou reduzidas umas às outras.” (§811).
Um dos erros seria traduzir sentimento em um “pensamento com emoção”, ou intuição em uma “sensação mais rápida”, ou pensamento em um “sentimento mais frio”. Jung se opõe a essas traduções porque elas desfiguram o que ele quer preservar: cada função opera segundo um princípio próprio, e justamente por isso elas entram em tensão, compensação e unilateralização.
É útil, então, apresentar as funções como meios de orientação da consciência, não como traços de personalidade no sentido cotidiano. Como Jung apresenta em Fundamentos da Psicologia Analítica: a sensação nos diz que algo existe, o pensar nos diz o que é, o sentir nos diz se é agradável ou não, e a intuição nos diz de onde vem e para onde vai. Aqui temos uma boa bússola, ou seja, as funções são maneiras de produzir um tipo de resposta orientadora diante da realidade (externa e interna).
Duas observações ainda são necessárias para não criar confusões que depois podem gerar problemas. Primeiro, Jung separa função de outras atividades psíquicas que podem atravessar todas elas, por exemplo a fantasia. No mesmo verbete, ele diz que diferencia as funções fantasia, porque o fantasiar lhe parece “[...] uma forma específica de atividade que pode apresentar-se em todas as quatro funções básicas” (§811). Fantasia não é uma quinta função paralela; ela pode colorir pensamento, sentimento, sensação e intuição de modos diversos. Isso é crucial para não “tipologizar” conteúdos (imagens, sonhos) como se eles fossem, por si, uma função. Marie-Louise Von Franz, em Psicoterapia, aponta como só conseguimos apreender aspectos gerais das funções em conteúdos como contos de fada, por exemplo, se são superiores ou inferiores, mas dificilmente sua especificidade.
Segundo, a tipologia, desde a base, prepara o terreno para o problema do desenvolvimento unilateral. Falar em funções implica falar em diferenciação: uma função pode se tornar mais consciente, mais confiável, mais instrumental, enquanto outra permanece mais primitiva, infantil ou inconsciente. Mesmo que a discussão técnica de função superior/inferior venha mais adiante, já aqui convém guardar a ideia: função, em Jung, é um conceito que descreve formas e, ao mesmo tempo, permite pensar hierarquias e compensações na economia psíquica, precisamente porque essas formas não se distribuem de modo simétrico na vida de um indivíduo.
O que é a função sentimento?
A função sentimento, na tipologia junguiana, precisa ser apresentada desde o início contra duas confusões recorrentes: a primeira é tomar sentimento como sinônimo de qualquer estado emocional; a segunda é confundir sentir com uma espécie de pressentimento. Jung insiste que se trata de uma função psicológica específica, isto é, de um modo de atividade que organiza a orientação consciente, por isso, exige uma definição mais estreita do que a do senso comum.
Em Tipos Psicológicos, essa precisão aparece já na distinção terminológica. Jung separa sentimento (Gefühl) e sentimento (Fühlen): “Gefühl, é o conteúdo ou matéria da função do sentimento” (§895); e logo em seguida: “Fühlen, considero o sentimento uma das quatro funções psicológicas básicas” (§896). Essa diferença é decisiva para não reduzir a função a um conjunto de conteúdos afetivos episódicos.
Ainda no mesmo trecho, Jung toma posição contra uma compreensão derivativa do sentir, como se ele fosse apenas efeito tardio de representações ou de sensações. Afirma que não endossa a orientação psicológica que entende o sentimento como fenômeno secundário e sustenta, ao contrário, que “[...] o sentimento é função autônoma sui generis” (§896); ela tem validade e importância por si mesma. Com isso, o sentir é colocado no mesmo patamar formal das demais funções: não é um adorno subjetivo do pensamento, mas uma via própria de orientação.
A definição nuclear do sentir é dada por Jung em termos operacionais, quase como uma descrição do que a função “faz”. Ele escreve: “O sentimento é, em primeiro lugar, um processo que se realiza entre o eu e um dado conteúdo, um processo que atribui ao conteúdo um valor definido no sentido de aceitação ou rejeição (‘prazer’ ou ‘desprazer’)” (§896). Assim, a função sentimento não informa primariamente “o que algo é”, mas qual é o seu valor para o sujeito.
Em A Vida Simbólica (OC 18/1), quando Jung define sentir como juízo de valor, ele escreve: “O que entendo por sentir, em oposição a pensar, é um juízo de valor como, por exemplo, agradável e desagradável, bom e mau etc.” (§502). Essa frase é particularmente útil para uma introdução, considerando que retira o sentimento do campo nebuloso do “meramente subjetivo” e o recoloca como operação judicativa - de juízo -, com um critério próprio (valor), distinto do critério do pensamento (conceito).
Ao mesmo tempo, Jung reconhece que o vocabulário ordinário embaralha sentir e intuir. Ele observa: “Sentir é uma palavra que necessita de explicação […] empregamos o mesmo termo para exprimir uma intuição: ‘Tive um sentimento de que…’” (§501). É importante reter essa advertência, pois uma parte significativa das leituras equivocadas da tipologia começa justamente por atribuir ao sentimento o que, em Jung, pertence à intuição: pressentimentos, palpites, antecipações de curso futuro.
A distinção entre sentimento e emoção/afeto é outro ponto estrutural da definição. Jung escreve: “De acordo com esta definição, sentimento não é nenhuma emoção nem afeto […] O que entendo por sentimento é, antes, um simples julgar, sem aquelas reações evidentemente corporais que são características de uma emoção” (§502). Assim, emoção e afeto podem acompanhar o sentir, podem intensificá-lo ou perturbá-lo, mas não o definem: a função, em si, permanece uma operação de valoração.
Em Tipos Psicológicos, Jung descreve tecnicamente a passagem do sentimento ao afeto como uma questão de intensidade. Ele afirma que “aumentando a intensidade, surge um afeto, isto é, um estado sentimental com inervações corporais sensíveis” e conclui: “O sentimento se distingue do afeto por não provocar inervações corporais sensíveis” (§896). Com isso, o afeto aparece como um estado em que a energia do sentir transborda e se torna somaticamente - no corpo - evidente, enquanto o sentimento, como função, pode operar com relativa discrição.
Por fim, Jung não descreve o sentimento como algo uniformemente “puro” na experiência comum. Ele observa que o sentimento comum tende a ser misturado com outros elementos funcionais como as sensações. Quando a função sentimento não está suficientemente diferenciada, ela aparece amalgamada (por exemplo, como “sensação sentimental”), o que tem consequências para o modo como o sujeito avalia e se orienta.
Em suma, a função sentimento pode ser delimitada por alguns traços essenciais: é uma função autônoma; opera como juízo de valor; distingue-se de intuição e de afeto/emoção; pode aparecer indiferenciada, misturada a outras funções. Essa delimitação é o pressuposto necessário para o que apresentarei a seguir, adentrando em nosso problema central: por que o sentimento é uma função racional?
Por que o sentimento é racional?
A afirmação de que o sentimento é racional só se torna clara quando se retoma o sentido técnico de racional na tipologia. Jung distingue tipos racionais e irracionais segundo um critério que não é moral (bom/mau) nem cultural (civilizado/primitivo), mas funcional: trata-se de saber se a orientação da consciência se dá por juízos (racionais) ou por percepções do dado (irracionais), aos primeiros pertencem o tipo pensamento e sentimento, aos últimos o tipo intuição e sensação.
Essa separação fica mais nítida quando Jung descreve a sensação como algo simplesmente dado e, por isso, não submetido às leis da razão, ao contrário do pensamento e do sentimento. A sensação - e, por extensão, a intuição enquanto função perceptiva - informa que algo é ou oferece uma apreensão imediata, mas não decide o que o conteúdo significa nem qual peso ele deve ter. As funções racionais, ao contrário, trazem o elemento judicativo que organiza e hierarquiza.
Jung ressalta nas Conferências de Tavistock: “a sensação diz que alguma coisa é; o pensamento exprime o que ela é; o sentimento exprime-lhe o valor” (§24). O sentimento, portanto, responde por uma dimensão sem a qual não há orientação efetiva: a valoração, isto é, a discriminação do que é aceitável, importante, preferível, digno de investimento.
Assim, a racionalidade do sentimento não depende de ele produzir conceitos, mas de ele operar um tipo próprio de ordenamento. Novamente em Tipos Psicológicos, Jung formula a analogia estrutural: “Assim como o pensamento ordena os conteúdos da consciência em forma de conceitos, o sentimento os ordena de acordo com seu valor” (§898). A racionalidade, aqui, é a capacidade de conferir juízo, forma e direção; pensamento e sentimento são dois modos distintos de produzir essa forma.
O sentimento é racional não por se confundir com lógica, mas porque os valores não são distribuídos de maneira arbitrária, e sim segundo certas regularidades e critérios. Por isso, como o pensamento, o sentimento é uma função racional, sendo que Jung sustenta essa afirmação no fato de que “os valores em geral são atribuídos segundo leis da razão”.
Essa passagem ganha mais clareza quando se compreende que Jung entende razão de modo mais amplo do que um racionalismo lógico. No verbete “Razão”, ele afirma que “não existe apenas um racionalismo lógico, mas também um racionalismo sentimental”; e define: “Razão é, pois, a capacidade de ser razoável, uma atitude especial que torna possível um pensar, sentir e agir segundo valores objetivos” (§585).
A resistência que observamos a essa tese é previsível, uma vez que sentimento é um termo carregado de ambiguidades na linguagem comum. Jung mesmo registra o escândalo: “o ‘horrível’ sobre o sentimento é que ele, como o pensamento, é uma função racional” (OC 18/1, §23). E explica por que tanta gente o toma por irracional: para a maioria, o sentimento parece ser totalmente irracional porque se pode ter os mais diversos sentimentos de maneira idiota, isto é, de modo desmedido, contraditório ou sem critério consciente.
Para responder a essa objeção, Jung precisou construir as separação que fizemos anteriormente entre sentimento, afeto/emoção e palpite/intuição. Essa diferenciação também é descrita em Tipos Psicológicos pela oposição entre sentir ativo e sentir passivo. Jung compara a valorização pelo sentir à apercepção (processo de apreensão de conteúdos) intelectual e distingue “uma apercepção sentimental ativa e passiva”. Ele explicita: “só o sentimento ativo, dirigido, poderia ser denominado racional, ao passo que o sentir passivo é irracional, na medida em que estabelece valores sem a participação do sujeito, às vezes mesmo contra a intenção deste” (§900).
Com isso, concluo uma tentativa de explicar a tese junguiana de que o sentimento é racional, na esperança de desfazer um paradoxo comum e deixar claro que: o sentimento é racional enquanto função judicativa de valores, e torna-se efetivamente racional na medida em que se diferencia e se dirige. Ainda seria possível nos aprofundarmos na distinção entre um sentimento extrovertido e introvertido, bem como superior e inferior, porém, deixaremos isso para textos ou eventos futuros.
Por João de Bragança



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